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Autor Tópico: GERAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA  (Lida 2398 vezes)
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« em: Março 18, 2010, 04:28:23 »

Nos últimos tempos fala-se da geração de 8 de Março. Também da de 25 de Setembro. Este texto defende que existe um esquecimento consciente da geração da independência, numa clara lavagem e/ou arranque de páginas da história. Porque será?

Os porta-vozes da geração de 8 de Março são geralmente algumas pessoas que compõem a actual numenklatura. E quando se fala dessa geração, refere-se aos jovens abrangidos pelas medidas de 8 de Março de 1977 que os afectou a várias tarefas então consideradas prioritárias. Possuíam em redor de 20 anos. A geração do 25 de Setembro é representada pelos dirigentes e antigos combatentes. Sem retirar importância às elites, não há dúvidas que os processos históricos são resultantes de movimentos sociais de que a luta de libertação nacional é uma evidência. Mas as abordagens que se fazem são classistas, neste caso da numenklatura no poder. Esquece-se o povo.

Considera-se por geração da independência a juventude que imediatamente antes e depois da independência, aderiu e se envolveu no projecto nacional de construção de uma nova nação. Hoje, na maioria, são cidadãos cinquentões. Muitos tornaram-se ou já eram membros da FRELIMO. Alguns deixaram de o ser, pelo menos desta FRELIMO.

É justo não esquecer os milhares de jovens soldados, camponeses, operários das fábricas, funcionários, intelectuais, técnicos, cooperantes (porque não?), etc., que construíram os alicerces do Estado moçambicano e que contribuíram para a libertação da África Austral. Foi um movimento social, onde existia um projecto para a nação com grande legitimidade e apoio popular, mesmo que sem o consenso de todos os moçambicanos.

Para não haver desvio ao objectivo, o texto refere-se a partir de agora às elites dessa geração. Jovens de origens sociais e raças diferentes, entregaram-se generosamente e mesmo ingenuamente a causas nobres, mesmo que idealistas (a última geração utópica, para referir o título de um livro de Pepetela, escritor angolano). Uma sociedade justa, de igualdade de oportunidades, desenvolvida, moderna, apenas constituída pela raça humana, sem exploração. Um ideário de sonhos, mobilizador da generosidade de jovens, de ideólogos, de pessoas de boa vontade que acreditaram no discurso e sobretudo num homem, Samora Machel, que, por mais críticas que se lhes possam tecer, tornou-se o ícone de um país e de uma geração.

Jovens que por causas, aceitaram sacrifícios e muitos a morte. Eram técnicos e dirigentes de empresas que produziam alimentos mas que comiam carapau e repolho em casa. Que aceitavam tarefas e nunca perguntaram pelo salário nem por benesses. Que trabalharam em contexto de guerra. Que asseguraram o funcionamento do Estado e das empresas sem horário de trabalho. E desse trabalho, ainda em princípios dos anos oitenta, em plena guerra, produzia-se mais que hoje em quase todos os produtos. Muitos, no exército e nas forças de segurança, lutaram e deram a vida pela libertação da Africa Austral E por aqui me limito.

Cometeram, juntamente com a geração de 25 de Setembro que detinha (e detém) o poder, muitos erros. Foi-se autoritário. Esqueceu-se que a economia possuía regras que não podiam ser esquecidas nem alteradas administrativamente. Houve guerra que não foi apenas produto externo. Os ideais e o projecto nacional, esqueceram as realidades sociais e antropológicas do povo. Porque se assumiam funções exigentes, também existiram incompetências.

Hoje, muitas interpretações existem sobre esses jovens. Esquerdolas pequeno-burgueses. Porque muitos eram não negros, alguns chamam-lhes de branquelas colhidos de surpresa pela independência que não souberam para onde ir. Que passaram de portugueses de segunda classe para moçambicanos por favor legal. Outros, em positivo, reconhecem os valores, a coragem e os ideais que perseguiam. Dos jovens que não pertencem à elite, pouco se fala. Quando muito a heroicidade, em abstracto, na guerra (civil, dos 16 anos, da democracia, etc., como cada um defenda).

O poder de então, sempre teve uma relação difusa em relação à geração da independência. Aproveitaram-se as habilitações técnicas que possuíam para substituição dos portugueses, em muitos casos através de descendentes de portugueses. Por isso e pela origem de classe burguesa e pequeno burguesa, a fobia do inimigo infiltrado no aparelho de Estado de”operários e camponeses”. Para alguns, era uma situação de compromisso tolerável e de pouco risco, porque não possuíam base social que pudesse incomodar os setembristas. Para poucos, a convicção de uma sociedade não racial onde se privilegia o mérito e a dedicação a causas e também, porque não, a lealdade (diferente de fidelidade). Para uns quantos dos de 25 de Setembro, a simpatia, amizade e o reconhecimento patriótico ou mesmo de camaradagem.

Da elite desta geração, existem hoje nomes reconhecidos por mérito e honradez em quase todas as áreas da sociedade e internacionalmente. Nas letras e artes, dirigentes e funcionários de alto nível em organizações internacionais, académicos, empresários e técnicos, etc. Alguns também enveredaram por caminhos questionáveis. A grande maioria, porque não negros e que lutou pelo people empowerment, foi objecto do black empowerment silencioso mas eficaz. A maioria adaptou-se e hoje, possivelmente, agradecem esse black empowerment.

Esquece-se esta geração pelas mesmas razões porque dela sempre houve receios. Mas ao esquecê-la, pretendem-se esquecer os ideais, o projecto de nação. Pretende-se ignorar a numenklatura da FRELIMO que não está no poder. E porque não sugerir que se pretende esquecer Samora.

A elite da geração da independência era progressista, possuía ideais, era modernista e, se não se importam, patriótica e nacionalista. E já ficou na história. Construiu os alicerces do Estado e contribui para a libertação da África Austral. Veremos como as outras duas gerações ficarão na história. Sim as duas, porque muitos da geração de 25 de Setembro estão hoje identificados com elementos do pós libertação nacional. E não sei se estão a trocar o direito a páginas douradas da história moçambicana (mesmo que com zonas de penumbra), por páginas cinzentas ou negras. Em relação aos de Março, para além da propaganda e manipulação política do poder e de alguns parceiros externos, as estatísticas internacionais indicam que a pobreza não recuou significativamente, o país é dos últimos no Índice de Desenvolvimento Humano, está classificado como dos mais corruptos e menos competitivos do mundo e com as maiores taxas de prevalência de doenças endémicas. Muito que fazer para deixar uma marca histórica.

João Mosca
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