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linguadeperguntador
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« em: Maio 25, 2010, 02:12:08 » |
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É com inusitada paixão e entusiasmo que tenho acompanhado o debate filosófico no meio intelectual (e nos media) em torno da chamada “Geração da Viragem”. Sou jovem e, directa ou indirectamente, surpreendo-me envolvido na extensão e na compreensão deste novo “silogismo político”, trazido à tona por Sua Excelência o Presidente da República de Moçambique, Armando Emílio Guebuza. Pelo que tenho vindo a acompanhar, para Guebuza a “Geração da Viragem” compreende essencialmente toda a classe juvenil actual que “tem como missão histórica lutar e vencer a pobreza” (Extracto do discurso de tomada de posse do PR, à 14 de Janeiro de 2010). Tal geração, ainda segundo o discurso guebuziano, demarca-se de outras historicamente distintas: 1. A “Geração do 25 de Setembro”, que veio dos primórdios da criação da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), no início da década de 1960, e que teve como missão a luta de libertação colonial; 2. A “Geração do 8 de Março”, que foi impelida por Samora Machel, em 1977, a sacrificar-se pela nação e que teve como missão a construção e solidificação do Estado independente. A visão geracional guebuziana vê a “Geração da Viragem” como um conjunto de jovens moçambicanos (trabalhadores e estudantes formados ou em formação) comprometidos com a luta contra a pobreza. Pelo menos é o que o meu humilde exercício intelectual me deu a constatar, lido o discurso presidencial supracitado. Não pretendo aqui problematizar a “teoria da abordagem geracional guebuziana” na análise e interpretação da história contemporânea moçambicana. Embora inusitadamente interessante para outros fervorosos debates, não constitui o cerne do presente artigo. Concentremo-nos exclusivamente no conceito da apregoada “Geração da Viragem”, mormente na sua extensão e compreensão. Já sabemos o que Guebuza diz ser a “Geração da Viragem”. Ou presumimos saber. Partamos então para o significado de geração, que numa definição simplista remete-nos à ideia de um conjunto de pessoas que vive e marca um determinado momento histórico. Ademais, uma geração só existe ou é catalogada como tal necessariamente em função de uma outra (ou outras) pré-existente. Geração (ou gerações) que geralmente a antecede e que são, no caso moçambicano, oficialmente designadas de “Geração do 25 de Setembro” e de “Geração do 8 de Março”.
Reparemos: do início da década de 1960 à 1977 passaram-se sensivelmente 15 anos – da criação da FRELIMO à mobilização dos jovens de então para assegurarem a independência e o desenvolvimento de Moçambique. De 1977 aos nossos dias passam-se já 33 anos! O que fica subentendido nas entrelinhas é que há, ao longo destes anos todos, uma geração (ou várias) historicamente esquecida (as) e eclipsada (as) do discurso político oficial. E que há, nos nossos dias, e de um modo particularmente surpreendente, uma tentativa oficial de mobilização política de uma geração distinta: a “Geração da Viragem”. Porquê “Geração da Viragem”?! Desconheço, tal como muitos jovens meus contemporâneos, a gênese, o significado, o alcance e até mesmo a legitimidade de tal atributo. Até concordaria com a pertinência de um chamamento mobilizador da juventude para a acção na luta contra a pobreza em Moçambique. Discordo em absoluto do rótulo. E depois surgem questões interessantes: Virar o quê? Virar como? Virar quando? Virar a partir de onde? E quem são (ou serão) verdadeiramente os tais viradores? Tentemos responder à algumas destas questões. Viragem significa ruptura, ou mudança de direcção. O que é extremamente inflamável, quando se fala de juventude e, satiricamente ou não, de conflito de gerações! Arrefeçamos e voltemos ao cerne do debate. Com o quê é que é preciso romper? Com a história? Com a herança (positiva e negativa) de outras gerações? O que é necessário virar? Os novos hábitos, práticas e atitudes da juventude contemporrânea? Esta última questão parece-me a mais razoável e consentânea com a “imperiosidade” da viragem. Pelo menos se se convencionar a priori a “Geração da Viragem” como esta de hoje: a geração do barril de cerveja, das noitadas no Coconuts, das “tantas mulheres quantas puderes ter”, dos 5 dubaizinhos na garagem e do diploma comprado; a geração que tem como meta de sonho o salário chorudo num emprego de escritório onde nada mais faz do que navegar em sites pornográficos, de astrologia ou de videojogos nas horas normais de expediente! Fora deste âmbito, o termo “Geração da Viragem” acusa falta de consistência semântica. Quem é a “Geração da Viragem”? Um grupinho de jovens à reboque do Conselho Nacional da Juventude (CNJ)? Os jovens que se aventuram aos distritos (e que, ressalve-se, não vão para lá porque realmente querem lá viver e trabalhar, mas sim porque somente lá é que poderão ter emprego garantido e, eventualmente, virem a ser chefes de alguma coisa)? Ou serão apenas os jovens que se mostram dispostos a alinhar no diapasão do discurso do dia?!... Porque exemplos temos de sobra em relação aos jovens que já mostraram e demonstraram publicamente vontade de mudar o país (Daviz Simango, Azagaia), mas cujo discurso é, necessariamente, conflitante com o do regime vigente. Ou não encontra nele sintonia, espaço ou acolhimento. Um parêntesis. Esse debate geracional abre muitos outros igualmentes interessantes. Ao longo desta sucessão toda de gerações houve sempre os excluídos. Atrevamo-nos: 1. Os “reaccionários” e os matsangas/“bandidos armados” como os excluídos da “Geração do 25 de Setembro”; 2. Os madgermanes, os desmobilizados de guerra e os operários de fábrica vítimas do Programa de Reajustamento Estrutural como os excluídos da “Geração do 8 de Março”; 3. Actualmente, os malta eu, os Azagaias, os vendedores ambulantes e “sentantes”, o exército de licenciados desempregados, etc, como os excluídos da “Geração da Viragem”! Outro debate... O que virar? Para Guebuza, seria óbvio: a pobreza! Mas o que é a pobreza? Quem a criou/cria? E porquê temos que ser precisamente nós a vencê-la (se a “Geração da Viragem” formos todos nós os jovens, CNJ, OJM, Azagaias, jovens apolitizados, despolitizados e neutros, vendedores ambulantes e desocupados inclusos)? Deixemos propositadamente de lado a definição oficial de pobreza do governo e procuremos a versão dos jovens que se pretendem da “viragem”. Vamo-nos rir à valer com a diversidade de respostas. Se para o governo do dia a pobreza é, convenhamos, viver com menos de um dólar USD por dia e com acesso precário ou inexistente à serviços sociais básicos (água, hospitais, escolas), para um estudante a mesma pode ser a falta de um carro pessoal ou de um telefone 3G... Para o vendedor ambulante, pobreza pode ser o martírio diário do “ensardinhamento” nos chapas, o sentimento de impotência perante o dilema do encurtamento de rotas ou a fatalidade do almoço diário de pão, 3 badgias e um ou dois copos de água! E este parece ser igualmente um outro debate... Como virar? Guebuza provavelmente responderia “através do empreendedorismo”. Os correligionários do CNJ brindar-nos-iam, para além do auto-emprego, com “a disposição juvenil” em se aventurar aos distritos. Alguns colegas meus de faculdade encontrariam melhor resposta para o dilema da empregabilidade dentro da “estrutura geracional” de governação do país: não há emprego para os jovens de hoje porque os da “Geração do 8 de Março” ocupam 3,4,5 postos de emprego em simultâneo, e porque os da “Geração do 25 de Setembro” gerenciam empresas onde empregam estritamente familiares, afilhados e enteados! Quem realmente tem de virar no país?! É ambíguo demais dizer-se meramente que os jovens devem empreender-se sem estar previamente claro o que o governo faz para que eles se empreendam (políticas, incentivos, oportunidades). E já agora, sobre o tão propalado êxodo aos distritos, qual é a representação percentual dos jovens que para lá vão, tendo em conta a expressão numérica dos que também querem para lá ir e que não o podem por constrangimentos naturais e artificiais?! E o que dizer em relação aos que, legitimamente ou não, não querem para lá migrar?! Tenho que concluir. Não me parece de interesse nacional a continuidade deste debate. Interesse nacional é empregar ou enquadrar a juventude formada (ou em formação) e disponibilizar-lhe o espaço e a oportunidade devida e merecida, na missão de desenvolvimento sustentável do país. E é só isso que tem que ser feito, e muito bem feito. O debate de gerações é iminentementte frelimista e tem que ser visto, como alguns já o defenderam, dentro da lógica de sucessão intra-partidária na liderança do Partido Frelimo. Vejo a “Geração da Viragem” como uma utopia do regime para tapar os olhos dos jovens crescentemente marginalizados no acesso ao emprego (do estilo “organizem-se, criem empregos próprios e combatam a pobreza”). Repare-se bem, aqui já não temos jovens com o “dever histórico” de governar (por terem libertado o país), nem jovens tornados dirigentes “coersivamente” pelo 8 de Março. Temos sim, nos nossos tempos, jovens relativamente formados (milhar e poucos com a faculdade feita e outros tantos milhares com o nível médio concluído), que estão sendo oficialmente sugeridos a “desenrascarem-se”!!! Não basta apenas que chamem aos jovens de hoje de “Geração da Viragem”. E tal catalogação não pode ser refém do comprometimento ou não que temos (ou não temos) em relação ao discurso do dia, dando a impressão de que a OJM ou o CNJ estão mais dentro dessa viragem do que o “jovem ninguém”. Nem pode tal atributo conter resíduos, visíveis ou não, de acomodação dos frelimistas de 18-35 anos que dão “vitórias retumbantes” ao partido, para ofuscar-lhes as reivindicações (já agora justas e pertinentes) pelos dividendos das conquistas eleitorais. Porque, bem lá no fundo, há em toda esta trafulhice uma verdade bem imponente aos olhos de quem sabe ver com os seus próprios olhos, como eu o sei: ninguém vai erradicar a pobreza, e muito menos os tais da viragem. Porque lutar contra a pobreza é uma coisa. Tentar lutar contra ela é outra. E vencê-la, uma outra coisa ainda muito mais distinta! Mesmo a fechar: a pobreza sempre existiu, existe e existirá em Moçambique, tal como em qualquer outra parte do mundo. E se, em Moçambique, não pode ser combatida por quem a criou ou por quem é parte inerente da sua manutenção (adivinhem o nome de tal geração), pior ainda será para a geração delegada para tal combate através de um mero discurso presidencialista. Logo, não se vai mudar nada. Não se virará patavina alguma. Talvez amenizar-se-á a tal pobreza, ou muito provavelmente se mudará a sua manifestação actual. Por conseguinte, e no final das contas, a história por si só se encarregará de rotular à geração actual o nome mais conveniente, que será definitivamente outra coisa que não a da tão propalada viragem. Talvez “Geração da Tentativa”, já agora que parece estar na moda a atribuição de nomes exóticos à tudo e mais alguma coisa! Ou, muito provavelmente, “Geração do Nada”. Ou da palhaçada, na melhor das hipóteses.
Edgar M. A. Barroso
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