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Autor Tópico: O POVO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO (?)  (Lida 456 vezes)
linguadeperguntador
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« em: Setembro 05, 2010, 07:49:56 »

Caríssimos leitores, estimados compatriotas,
1 Setembro de 2010, foi um dia diferente para um povo que fora tido como pacífico, tolerante: povo dos camaradas, povo moçambicano!
Cada um que se fazia às ruas era de se surpreender: estradas com barricadas, pneus acessos, trocos, barracas de paragens de Semi-Colectivos de passageiros no meio da rodovia, em nome da Greve!

Greve? – Perguntei, mas não porque era ignorante mas pela tentativa de perceber na íntegra a situação, para “meditar” melhor.
É incrível porque a resposta soava sem um sujeito prenunciador, aliás, era aparente povo, aparente porque um punhado de povo!

Custo de vida subiu!
O que é custo de vida?
Energia, água, pão, combustível, todos os alimentos básicos: arroz, etc; transporte,...
Parei um instante e pensei e concluí...
É verdade! E real!
E voltei à carga...
E porquê greve?
Porque ninguém quer nos atender, o “governo” não quer fazer nada!

Impressionante resposta: “o governo não quer fazer nada”!
Essa resposta levou-me à uma conversa com um dos meus colegas de classe e enquanto discutíamos, num dos canais televisivos que transmitia em directo a tumultuosa greve passou uma reportagem segundo a qual um grupo numeroso de pessoas gritavam fortemente com sinal de fúria implacável: “O povo unido jamais será vencido!!!” repetidas vezes a mesma frase, e parecia que ela ateava a fúria daquele acervo populacional. Isso foi suficiente para abandonarmos a conversa que vínhamos tendo e perguntei não para obter resposta dos colegas mas para ter pontapé de saída para o novo raciocínio:

O povo unido, será que se refere a algum sindicato ou aquele tumulto? E jamais será vencido, quem é esse que luta como povo para o vencer? Será mesmo verdade que o povo está unido?
Nesse momento entra um colega na sala com a Constituição da República, a Lei MÃE, abro onde o Artigo 87 § 2 onde reza que, passo a citar:  “2. A lei limita o exercício do direito à greve nos serviços e actividades essenciais, no interesse das necessidades inadiáveis da sociedade e da segurança nacional.” e o Artigo 51 que diz, passo a citar “Todos os cidadãos têm direito à liberdade de reunião e manifestação nos termos da lei. ”
 
É evidente, a Lei em si é fiscal da ordem, quando o povo não está satisfeito com a prestação dos seus dirigentes tem o direito de se manifestar, isto é, de fazer greve.

Pensei comigo:
O povo que jamais será vencido, não sei por quem, parece-me ter razão!!! Mas será que lembrou-se do Artigo 45§ b, d, f e g?
E fui descansar pois estava estafado, mas infelizmente não consegui ter sossego porque os disparos estavam cada vez mais frequentes e fortes. Portanto ergui-me e foi ver de novo a TV e deparei-me com uma situação seguinte:
   *armazém invadido em Xiquelene e o “povo não vencido” a se apoderar,
   *Balcões de Millenium Bim e Procrédito vandalizados,
   *Bombas da BP com fogo posto,
   *instalações da EDM invadidos e pilhados, duas viaturas queimadas,
   *Automóveis dos particulares derrubados, até alguns carros da equipa de reporteis de algumas televisões,
   *etc., etc., etc.,...
E de boca-aberta fiquei... questionei-me mais uma vez:
Será greve ainda? Não terá tomado outros contornos? O que dir-se-ia disso?
Um repórter deu cara na tela do meu televisor, ele esta dentro duma empresa, à priori não entendi de quê, pois estava uma confusão tremenda e disse:
“Assim ficou essa empresa de plásticos totalmente vandalizada (...)!”
Exactamente esse nome que procurava, o jornalista me iluminou: Vandalismo!
Sinceramente não tenho outra palavra para definir tamanha situação. E me deu impressão de que enquanto os outros saíam às ruas clamando pelos preços, outros estavam nos estabelecimentos, instituições, ou coisas parecidas a fim de vandalizarem e pilharem.

Qual greve? Vandalismo, sim!!!
E a polícia, na tentativa de manter a ordem, disparava, dispersava multidões, tanta correria de lá para cá, de cá para acolá e fez lembrar do filme que fizeram uma das peças de gravação aqui na cidade das acácias: “A república dos niños”, se o caro leitor se lembra é fácil fazer essa analogia com a realidade mais real vivida do que nunca.

Disparos: balas de borracha e balas de pólvora!

Essa ou aquela, porque nessa, vi uma rapariga trajada de uniforme escolar com um inchaço nas costas, porque foi atingida pela suposta bala perdida, na paragem da Escola Secundária da Matola ao longo da EN4, vulgo Wittbank (graças a Deus, porque era bala de borracha!); e naquela porque ao longo dessa estrada, mas desta vez na paragem Avenida, no cruzamento para quem vai à cinema 700, outro cenário muito constrangedor: um rapaz foi atingido na perna, caiu, gemeu...escorreu sangue. Sorte maior estava a passar daí uma ambulância da Cruz Vermelha e foi evacuado. Ali era infelizmente uma bala de pólvora. É o que levou a escrever outrora: “disparos: balas de borracha e de pólvora!”

A polícia disparava, evidentemente, não para o ar mas directamente para os manifestantes, e noutros casos matava os inocentes, como o caso da rapariga que um canal televisivo reportou: atingida mortalmente na sua própria residência enquanto assistia a televisão. Uma bala de pólvora perdida! Que desastre!

Estrondos de balas e bombas lacrimogéneo por todo o lado, som de ambulância que andava à procura de feridos e talvez de óbitos.
Gritos e saques por tudo que é canto!

Já são dois óbitos confirmados oficialmente, dizia o médico entrevistado.
Já são mais de cinco dezenas de feridos confirmados oficialmente, dizia o jornalista.
Já subiu para 230, o número de feridos do dia 1 à 2... são dados preliminares.

Tanta notícia, que fiquei sem saber o concreto. Mas na verdade a greve resultou em óbitos e feridos (graves e ligeiros).
Não sou nenhum jornalista e nem crítico mas essa é que foi a “verdade real”. Quase todos os canais que se preocupam com a situação social do povo moçambicano alteraram por completo a sua programação para amostrar o que se passa na nossa “bela” (?) capital das acácias:
   *Presidente Guebuza discursou, porta-voz do comando geral da polícia discursou, jornalistas, reportagens, imagens, etc. só não falou o porta-voz da greve.

A realidade fala por si mesma, ela é porta-voz do povo! E os óbitos? E os saques? As vandalizações e pilhagens? E o luto? E sei lá...

Deixe de especulações e lamentações senhores porta-vozes, digam o que vamos fazer.
Mas também algo é certo.
Será greve ou vandalismo?
Até onde isso nos leva?
Nyandayeyooooo!!!


Por: Fernando Henriques Martins c.
Estudante de Filosofia
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