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linguadeperguntador
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« em: Janeiro 07, 2011, 02:05:26 » |
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Nasci em Moçambique; adoro o meu país e tenho orgulho de ser moçambicano, não apenas por ter nascido cá, mas pelos ensinamentos e pelas histórias heróicas do meu povo, tanto no passado como no presente. Quando falo de ensinamentos não me refiro apenas aos escritos contidos nos livros e manuais de história de Moçambique, se bem que estes também contém uma dose de verdade, pecando por omitir certas verdades que considero de extrema importância para qualquer moçambicano, refiro-me igualmente aos valores e humildade que meus pais me transmitiram, e pediram para que também os transmitisse às novas gerações, e espero que o faça com lealdade. Mas não é este o assunto que me leva a escrever neste momento, quero sim manifestar a minha angústia, não apenas pela morte do mestre Malangatana, mas pela forma como certos moçambicanos que eram supostos fazer ou mandar fazer algo que honrasse a sua grandeza, como humano e como uma figura pública que muito fez por este país, e que as suas marcas são indeléveis. A partir das 22:30 minutos do dia 5 de Janeiro (o dia da morte do Malangatana), o canal televisivo RTP passou um documentário sobre a vida e obra de Malangatana, confesso que me emocionei, parecia-me uma situação em que tivéssemos uma morte anunciada e que naquele momento seria a última vez que tivesse oportunidade de se comunicar comigo. Sentí orgulho e louvei aquele gesto e, resolvi visitar em sequência os canais ditos moçambicanos, começando pelo "publico", estava a passar uma novela (como sempre); fui a Record, estavam lá uns ditos pastores a pedir que me aprossimasse a sua igreja (logicamente para pagar dízimo); fui à STV, estavam lá a passar alguns vídeos clips amadores que em nada me identifico; fui a TIM, estavam a passar um filme....desisti e voltei para ver o documentário de Malngatana na RTP. Ai conclui que para se ter valor neste país tem que se ser político (activo) porque para mim, Malangatana é um ícone que merecia mais e melhor tratamento do que uma simples reportagem de menos de 3 minutos. Portanto, meus caros compatriotas, digo e repito, tenho vergonha de partilhar o mesmo espaço territorial com certas pessoas, especialmente as que detém, neste momento, PODER e DEVER de tomar decisões correctas e fazer as coisas acontecerem quando devem acontecer e da melhor maneira. Não bastava que a sua morte ocorresse em Portugal? Tinha também que ser um canal português a dar a primeira grande homenagem? Não tenho muitas adversidades com Portugal e portugueses, mas o facto é que Malangatana valente Nguenya é moçambicano e tinha muito orgulho disso, inclusive dedicou quase toda a sua vida para incutir o valor da moçambicanidade nas mentes dos seus compatriotas. Lembro uma das passagens do documentário em que dizia que "depois de muito tempo na cidade de Lourenço Marques, resolvi voltar passar maior parte do meu tempo na minha terra natal, Matalane, porque não queria perder os meus valores e costumes". Isso me comoveu bastante porque hoje em dia vejo políticos mascarados que fingem não saber falar ou de terem se esquecido das suas línguas maternas, que grande vergonha. Malangatana é, para mim, um dos grandes herois, um indivíduo que nunac usou o argumento já esfarapado de "libertador" para benefícios próprios; lutou sim, não só pela libertação do país, mas também para a valorização e afirmação da moçambicanidade em quase todas as gerações. Lutou para mostrar o quão é importante ter uma identidade, lutando para defendé-la e valorizá-la. Descança em paz Mestre, és e sempre serás o maior. MALANGATANA VIVE!
Alvo Ofumane
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